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Quando o corpo se torna possível: educação, pertencimento e emancipação

“Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade,

confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a

expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de

comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades.”

— Neusa Santos Souza, 1983


Para iniciar esta narrativa, preciso voltar alguns anos, para que o contexto

se torne claro. Em 2018, eu estava no último ano do curso de Pedagogia na

Universidade de Brasília e profundamente envolvida com a Educação Inclusiva,

com foco na educação de pessoas surdas. Junto a outras colegas, participei de idas

a campo para compreender o cenário da Educação de Surdos no Distrito Federal. A

partir desses retornos, minha professora orientadora percebeu a ausência de um

espaço de referência sobre surdez na Faculdade de Educação. Assim, iniciamos o

movimento de criação do Laboratório de Libras e Surdez.

Foram meses de trabalho, organização e dedicação até que a data de

inauguração se aproximasse. Nesse processo, tarefas foram distribuídas entre

todas as envolvidas e a mim foi oferecida a função de mestre de cerimônias do

evento. Meu primeiro pensamento foi imediato: “não tenho o perfil para isso”.

Recusei. Indiquei uma colega que, aos meus olhos, parecia mais adequada para

ocupar aquele lugar.


No dia do evento, essa colega demonstrou nervosismo e apreensão, o que

afetou a condução das apresentações. Ao assistir, pensei que poderia ter feito um

trabalho melhor. Não por desmerecimento, mas por reconhecer que sou

comunicativa, expansiva e sociável — características compatíveis com a função.

Ainda assim, não foi a técnica que me impediu de estar ali.

É importante nomear: sou mulher, negra, gorda, com cabelos crespos em

corte black power. A colega indicada por mim era branca, magra, de cabelos longos

e lisos. Naquele momento, eu carregava um imaginário social que definia quem

podia ocupar lugares de visibilidade e centralidade. E eu não me via autorizada a

fazê-lo. Não soube nomear ou sequer perceber, mas estava atravessada pelo


racismo estrutural e internalizado, que havia limitado, desde sempre, meu

repertório imagético. Eu não me sentia apta porque nunca tinha visto corpos como

o meu ocupando aquele espaço.


Retomo, aqui, a primeira parte da epígrafe de Neusa Santos Souza: “Saber-

se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade,


confundida em suas perspectivas...” E assim eu vivia, sem ainda perceber. Essa

citação abriu o meu trabalho de conclusão de curso anos antes e abriu caminhos

que eu sequer imaginaria percorrer, ainda que eu desejasse “me recriar em minhas

potencialidades”.

Alguns anos depois, em 2021, iniciei minha trajetória na Escola da Árvore.

Foi a primeira entrevista de trabalho em que não tive medo de ser julgada pelo meu

cabelo ou pela minha cor. Essa sensação era nova, quase desconcertante. Ao ser

contratada, mergulhei em uma educação viva, diversa, que entende o ser humano

de forma integral e reconhece a multiplicidade como valor. Aos poucos, aquele

espaço foi me produzindo: fortalecendo minha identidade, minha presença e

minha voz.

Em outubro de 2025, durante a celebração dos 10 anos da Escola da

Árvore, fui convidada a ser mestre de cerimônias do Seminário de Educação

Insurgente. Aceitei de imediato. Sem hesitar, sem negociar comigo mesma, sem

recuar. O evento aconteceu ao longo de quatro dias e, junto com outro colega,

conduzi as aberturas e as rodas de conversa. Recebi muitos elogios sobre minha

desenvoltura, minha presença e meu carisma e, para meu total espanto, eu

concordava com eles. Eu me sentia bem, inteira, à vontade.

Na avaliação coletiva do seminário, percebi o quanto aquele momento era

simbólico. Foram quatro anos com os pés no chão da sala e no quintal da Escola

da Árvore que me fortaleceram. Foram quatro anos vivenciando práticas

afrocentradas, colocando a Lei 10.639/2003 em ação, sustentada por uma equipe

que acredita na diversidade como princípio ético. Foi nesse chão que meu corpo

negro, gordo e periférico foi legitimado. E, ao ser legitimado, tornou-se possível.

Nesse processo, a música “Autoestima”, de Baco Exu do Blues, ecoava

em mim como síntese do que eu estava vivendo. Quando ele canta “eu só tô

tentando achar a autoestima que roubaram de mim”, ele nomeia aquilo que a


estrutura social nos subtrai antes mesmo que possamos nos reconhecer. A dor que

a música expõe não é individual. É coletiva, histórica, atravessada por julgamentos,

exclusões e silenciamentos. Encontrar a autoestima, nesse sentido, não é se tornar

mais forte, mas recuperar o que nunca deveria ter sido tomado ou silenciado.

Estar naquele palco, conduzindo o Seminário, não foi um gesto de vaidade

ou superação pessoal. Foi um gesto de restituição: ocupar, com o corpo inteiro, um

espaço que antes me foi negado. Afirmar que a educação, quando cria

pertencimento, devolve aquilo que o racismo tentou arrancar: a dignidade de existir

sem pedir licença.


Volto, então, à segunda parte da epígrafe: “recriar-se em suas

potencialidades”. A epígrafe do meu TCC deixou de ser teoria e tornou-se vida. Não

superei nada. Tive espaço, apoio, oportunidade e pertencimento para exercer

aquilo que sempre esteve em mim.

É nessa educação que acredito: uma educação que rompe estruturas

racistas, machistas, homofóbicas, capacitistas; que não silencia corpos, mas os

convoca à existência. A educação que fazemos na Escola da Árvore forma sujeitos

críticos, sensíveis e implicados na construção de uma sociedade que rompa com

hegemonias ainda tão consolidadas e violentas.

Ser mestre de cerimônia no Seminário Educação Insurgente não foi

um ponto final. Foi a continuação de uma história que está sendo reescrita. Com

meu corpo inteiro, visível e possível.


 
 
 

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